
Eu não devia ter aceitado esse convite, que cilada acreditar no zodíaco. Que loucura acreditar que você vai mudar. Por que disso? Estamos sentados frente a frente a quase cinquenta minutos e nossa conversa não durou mais que um cigarro, enquanto o silêncio já consumiu meio maço. Eu não sei ler o que você não diz, e a única coisa que você disse até agora é que pelo visto choverá mais tarde. Nem notou que pintei os cabelos. Tento puxar um assunto, pergunto se ainda tem a velha mania de dormir de meias e você apenas balança a cabeça como quem diz sim. Quero saber se você já tem outra. Ou antes disso: saber por que me chamou para vir até aqui. Por que escolheu logo esse lugar? Qual a sua intenção me trazendo de volta a esse passado? É sexo que desejas? Deveria ter me levado a um motel, mas a verdade é que você é incapaz de me proporcionar todo esse calor que agora consumo numa xícara. Você só pensa em si, e a verdade mesmo é que isso pouco me importa. Te quero. Tudo que desejo nesse momento é ter coragem para lhe dizer que se ainda quiser, sou toda sua. O amor me humilha e me ilude. Quando o meu telefone tocou passei a imaginar que era hoje que iríamos nos acertar. Errei. Você não mudou, eu não te esqueci. Se você ao menos soubesse ler o meu olhar ia perceber o quanto invejo aquele casal feliz da mesa ao lado. Talvez isso lhe causasse alguma comoção. Porque o amor me humilha e eu me contento com pouco. Acabo aceitando suas palavras mudas e seu sexo frio. Aceito restos e dejetos. Aceito todos os convites que me fizer para voltar aqui. Aceito café sem açúcar e me entrego por inteira a você sem sal.
3 comentários:
ótimo!
me lembrou muito Eu sei que vou te amar. ficou forte, relacionamento maduro, sentimento maduro, mas a mesma dor de sempre...
uau
gostei demais! meu preferido, até agora!
me inspirou.
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